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24.5.05

Metro na Av. da Boavista: carta aos deputados do PS

Por altura da última campanha eleitoral, os candidatos do PS pelo círculo do Porto manifestaram-se contra o projecto da linha de metro na Avenida da Boavista. Muito do mal que essas obras poderiam provocar está já consumado - o abate das árvores, o arranque dos carris no viaduto sobre o Parque da Cidade - mas isso não é razão para aceitarmos o projecto como irreversível. Para lembrarmos aos deputados do PS pelo distrito do Porto o seu compromisso eleitoral, enviámos a todos eles, na passada sexta-feira, a carta que a seguir se transcreve.


Porto, 20 de Maio de 2005

Assunto: Metro na Avenida da Boavista (Porto)

Exm.º Sr. Deputado:

Em Novembro de 2004 foi apresentado publicamente o projecto dos arquitectos Siza Vieira e Souto Mouro para a linha de metro Boavista-Matosinhos. Para além da estranheza de se dar prioridade à construção de uma segunda linha para Matosinhos, quando há concelhos com elevado número de potenciais utentes, como Gaia e Gondomar, ainda à espera do metro (e, no caso de Gondomar, condenado a esperar muito tempo), o projecto em si logo suscitou veementes críticas:
  1. a nova linha, atravessando uma zona de baixa densidade residencial e de serviços, tem fraca viabilidade económica (em contraste, o corredor Diogo Botelho-Campo Alegre serviria numerosas urbanizações e escolas superiores, o que à partida lhe garantiria um número muito maior de utilizadores);
  2. a linha da Boavista não resolve o estrangulamento do troço Trindade-Senhora da Hora, pois o seu termo junto à Casa da Música fica desconectado do resto da rede;
  3. a prevista construção de um novo viaduto sobre o Parque da Cidade, apesar de alguns peritos asseverarem que o actual viaduto permite a passagem do metro, configura um sério atentado ecológico e um desrespeito pelo direito ao lazer dos milhares de utentes do maior parque urbano da região norte;
  4. o abate ou transplante de 438 árvores adultas no corredor central da Avenida e no passeio junto ao Parque da Cidade tem consequências negativas imediatas para a paisagem e para o bom ambiente citadino;
  5. os famosos cruzamentos à espanhola implicam uma real perda de qualidade de vida nas zonas residenciais para onde o trânsito será desviado (além do mais, a abertura ou o alargamento de vias nesses quarteirões obrigam ao sacrifício adicional de centenas de árvores).

A este coro de críticas – veiculadas em jornais, comunicados à imprensa, e até fóruns de discussão na Internet – juntaram-se as vozes dos candidatos do Partido Socialista pelo distrito do Porto às eleições legislativas de Fevereiro. O Sr. Eng. Braga da Cruz chegou mesmo a declarar, segundo o Jornal de Notícias de 24/1/05, que a linha Boavista-Matosinhos «é um exemplo típico de um projecto desenvolvido nos gabinetes sem discussão pública»; e após as eleições, em 23/2/05, o mesmo jornal transcrevia novas declarações do Sr. Engenheiro reiterando a oposição ao projecto e dizendo esperar que o novo Governo, de quem depende o financiamento, travasse a construção da linha.

Desde então, empurradas pela corrida de automóveis a realizar em Julho próximo, as obras avançaram a todo o vapor: abateram-se árvores, arrancaram-se carris, pôs-se a Avenida da Boavista em estado de sítio. Ignorando o desagrado público pelo projecto, a Câmara do Porto concretizou já alguns dos seus aspectos mais desastrosos. Seria um precedente perigoso que a estratégia do facto consumado forçasse a aprovação de um mau projecto, que maltrata a cidade e não serve os interesses da região. Nos últimos três meses, porém, não houve mais notícias sobre a possível rejeição da linha Boavista-Matosinhos pelo Governo.

Rogamos-lhe, Senhor Deputado, que exerça a sua influência junta do Governo para que seja honrada a promessa eleitoral do Partido Socialista de recusar a construção dessa linha.

Com os melhores cumprimentos,

Paulo Ventura Araújo
(pela Campo Aberto)






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