30.10.06
Concertos no Parque da Cidade
Nuno Quental
Exmo. Sr. Presidente da CMP
Dr. Rui Rio
Praça General Humberto Delgado
4049-001 Porto
Assunto: concertos no Parque da Cidade
Porto, 3 de Outubro de 2006
Exmo. Sr. Dr. Rui Rio
Os parques urbanos detêm funções que são variáveis no tempo e no espaço e também segundo os hábitos e práticas culturais da cidade onde se inserem, bem como do tecido social dos seus frequentadores. Muitas vezes parte dessas funções, porque intimistas e pessoais, escapam aos responsáveis pelo projecto, manutenção e gestão desses espaços verdes. Não sendo possível, obviamente, saber qual a razão que leva determinada pessoa a um parque em determinado momento, a sua gestão tem que ser feita da forma que melhor se adapte aos anseios e necessidades dos utentes sem, contudo, esquecer os principais objectivos das zonas verdes das cidades: recreação pública, máxima permeabilidade e infiltração das águas, circulação e purificação do ar, regulação da temperatura, absorção de ruídos e manutenção de alguma fauna no interior das cidades. As razões apontadas levam-nos a concluir facilmente que um parque urbano como o da cidade do Porto deve ser usado principalmente dum modo contemplativo e como local de descompressão do stresse diário e contacto com a natureza por parte das pessoas que o procuram, espírito que, aliás, presidiu à concepção deste parque por parte do projectista.
Na Europa central os parques, de dimensões bem maiores que as do nosso, são geridos como um espaço florestal semi-selvagem dentro das cidades e a opção é introduzir um número reduzido de equipamentos mantendo-os o mais parecidos possível com as florestas naturais. Assim é permitido aos cidadãos terem um contacto próximo com a natureza sem saírem da cidade e às crianças manterem uma ligação ao passado natural comum a todos nós.
Nos países do sul a opção é muitas vezes diferente coexistindo nos parques equipamentos de lazer e diversão tornando-os mais adequados ao sentir das populações dessas regiões. Existe, contudo, no nosso país e na nossa cidade uma tentação perigosa de confundir espaços verdes com terrenos vagos onde acabam por se instalar todos os equipamentos desportivos, de lazer e outros (estações do metro, por exemplo), não havendo respeito pelas funções nobres a que estes espaços devem ser consagrados.
Por estas razões recebemos com grande apreensão a notícia de um concerto recente para milhares de pessoas no relvado do Parque da Cidade. Os concertos no espaço deste parque podem causar um impacto muito nocivo na flora e sobretudo na fauna do local, além de entrar em conflito com o carácter contemplativo e de procura de sossego subjacente à utilização do parque. O nível de ruído deste tipo de concertos, sempre superior aos 40 dBA considerados como o limiar do conforto para o ouvido humano e podendo ultrapassar mesmo o limiar da dor (80 dBA), é só por si incompatível com outras utilizações do parque, incomoda os moradores da vizinhança e tem impactos graves na fauna capazes de num só dia comprometer todo um trabalho que conduziu à instalação e manutenção no parque dum apreciável conjunto de espécies da nossa fauna selvagem. O desassossego, o ruído excessivo e a destruição associados a estes concertos afastam do parque aves e mamíferos que, saindo dos seus limites, podem aí não retornar e, mais grave, podem ser mortos por atropelamento; além disso podem conduzir ao afastamento dos pais dos ninhos e tocas tendo como resultado a morte das crias por inanição, excesso de frio ou calor ou ataque de predadores.
Vimos por isso manifestar a nossa preocupação pela realização de iniciativas deste tipo dentro da área verde do Parque da Cidade do Porto e solicitar que as nossas críticas tenham da parte de Vossa Exa. a mais atenta consideração.
Com os melhores cumprimentos,
A Direcção da Campo Aberto


Campanha