7.9.05
O plátano de Damião de Góis... e a política na cidade
Havia um plátano em Damião de Góis. Um enorme plátano, lindíssimo, bem formado, provavelmente centenário, que enchia de sombra um descampado que durante algum tempo serviu de parque de estacionamento. Hoje, quem passar pelo gaveto daquela artéria com a rua Antero de Quental encontrará apenas o vazio e o estaleiro de um novo edifício.
Quem, como eu, nasceu e sempre viveu no Porto, não pode deixar de olhar para a evolução da cidade com uma profunda amargura. A situação actual é de tal forma preocupante que, de cada vez que observo um local ainda agradável e característico, me interrogo quanto tempo durará. Parece que a cidade é dominada, desde há muito, por um conjunto de pessoas que se esforça por arruinar a sua identidade: os recantos que desaparecem, as árvores e jardins abatidos sem dó nem piedade ou a calçada portuguesa que, repentinamente, se tornou pirosa; o urbanismo que se vê, onde casas antigas de dois pisos coabitam com prédios altos e disformes; a destruição do património histórico; os passeios miseráveis repletos de obstáculos; as obras megalómanas e injustificáveis, como se não houvesse alternativas ao esbanjar dos dinheiros públicos... Pedacinho a pedacinho vamos assistindo ao desmoronar de uma cidade que ainda conserva uma paisagem urbana de elevada beleza mas que, inegavelmente, se encontra cada vez mais fragmentada e degradada. Os conservacionistas também precisam de se deslocar a locais recônditos para observar espécies muito raras; pois o Porto, a continuar assim, acabará também por ser uma manta de retalhos, com alguns pequenos locais aprazíveis envoltos em cimento sem qualidade.
Assiste-se aqui, claramente, ao efeito cumulativo de pequenas e grandes intervenções. Individualmente, cada uma poderá ter um impacto relativamente pequeno, embora não despiciendo; no seu conjunto, o efeito é devastador. O problema do político comum é que ele tem tendência a analisar cada caso isoladamente, ignorando o efeito sinérgico. E, embora pudéssemos em muitos desses casos concluir que, mesmo de per se, a decisão fora errada, na prática esse político irá considerar que, pesando os prós e os contras, tomou a opção correcta. Ele esquece, porém, a existência de um passivo, e que a essa decisão há que juntar muitas outras que, ao longo do tempo, foram transformando, quase invariavelmente para pior, a imagem da nossa cidade.
Naturalmente que há mecanismos para evitar este tipo de vício de raciocínio. De um modo geral, a decisão política deveria ser precedida de uma análise por um grupo de peritos multidisciplinar e de acordo com princípios claros previamente definidos. Deveria, também, ser precedida da participação do público e das associações representativas da sociedade. Curiosamente, embora existindo no Porto esta massa crítica genuinamente interessada na cidade, ela é comummente ignorada, tal como aconteceu durante a fase de discussão pública do Plano Director Municipal (PDM), e arredada para um canto por ser “fundamentalista” (claro que esta acusação recorrente de “fundamentalismo” carece de toda e qualquer justificação, mas visto que se destina apenas a evitar um debate sério das ideias em causa, não vale sequer a pena perder tempo a tentar provar a sua desfaçatez). Curiosamente, ainda, foi aprovado pela Câmara Municipal um regulamento que teria como fim principal salvaguardar a mancha verde que ainda vai resistindo. É a mesma Câmara, contudo, que ignora diariamente a sua existência, a tal ponto que o regulamento nem sequer é referido na proposta de novo PDM.
Interessante é, também, analisar a evolução do discurso político. Antes das eleições predominam as propostas de mudança ou continuidade, respectivamente quando o partido em causa está na oposição ou no poder. A vontade de mudar é normalmente muito expressiva: os candidatos acreditam mesmo que, uma vez no poder, serão capazes de seguir uma política coerente, baseada nos princípios e estratégias que defenderam em campanha. A vitória nas eleições acarreta alterações profundas no pensamento e, nalguns casos, introduz um dado novo e doloroso que é a realidade. Progressivamente, instala-se na mente de alguns políticos uma espécie de corrupção intelectual que vai delapidando todo aquele frenesim de mudança. Os princípios possuem a grande virtude de serem fáceis de proferir mas o defeito ainda maior de a sua aplicação ser complexa. A certa altura do mandato, quando as ideias megalómanas surgem, é sinal de que pouco ou nada restará daquele entusiasmo inicial e de que a política deu lugar a uma sucessão de ideias desencadeadas.
Acredito que as coisas não têm de ser assim. Gostaria de encontrar um candidato que se pautasse pela verdade e que acreditasse que esse seria o caminho correcto para ganhar as eleições. Alguém que centrasse o seu discurso em explicar o modelo de cidade que idealiza, as estratégias que vai seguir e os projectos que irá concretizar, sabendo de antemão que são necessárias opções, já que os recursos são sempre escassos face às necessidades. Em suma, alguém que percebesse que a politiquice que caracteriza actualmente o país está completamente esgotada e que nada mais irá oferecer do que a frustração pessoal e a dos outros. É absolutamente necessário reintroduzir a ética, os valores e a verdade na política.
Entretanto, o centenário plátano de Damião de Góis foi a mais recente vítima de todo este cenário desolador em que nos achamos. Houvesse uma cultura da criação, da preservação e da reabilitação, e aquele monumento vivo continuaria incólume. Assim, os futuros moradores do edifício em construção teriam a enorme vantagem de abrir a janela e poder sentir uma lufada de ar fresco – que, ao fim e ao cabo, é um pouco aquilo que todos nós estamos a precisar.
Nuno Quental
Eng. do Ambiente
(publicado no Público, secção Local Porto, de 5 de Setembro)
Quem, como eu, nasceu e sempre viveu no Porto, não pode deixar de olhar para a evolução da cidade com uma profunda amargura. A situação actual é de tal forma preocupante que, de cada vez que observo um local ainda agradável e característico, me interrogo quanto tempo durará. Parece que a cidade é dominada, desde há muito, por um conjunto de pessoas que se esforça por arruinar a sua identidade: os recantos que desaparecem, as árvores e jardins abatidos sem dó nem piedade ou a calçada portuguesa que, repentinamente, se tornou pirosa; o urbanismo que se vê, onde casas antigas de dois pisos coabitam com prédios altos e disformes; a destruição do património histórico; os passeios miseráveis repletos de obstáculos; as obras megalómanas e injustificáveis, como se não houvesse alternativas ao esbanjar dos dinheiros públicos... Pedacinho a pedacinho vamos assistindo ao desmoronar de uma cidade que ainda conserva uma paisagem urbana de elevada beleza mas que, inegavelmente, se encontra cada vez mais fragmentada e degradada. Os conservacionistas também precisam de se deslocar a locais recônditos para observar espécies muito raras; pois o Porto, a continuar assim, acabará também por ser uma manta de retalhos, com alguns pequenos locais aprazíveis envoltos em cimento sem qualidade.
Assiste-se aqui, claramente, ao efeito cumulativo de pequenas e grandes intervenções. Individualmente, cada uma poderá ter um impacto relativamente pequeno, embora não despiciendo; no seu conjunto, o efeito é devastador. O problema do político comum é que ele tem tendência a analisar cada caso isoladamente, ignorando o efeito sinérgico. E, embora pudéssemos em muitos desses casos concluir que, mesmo de per se, a decisão fora errada, na prática esse político irá considerar que, pesando os prós e os contras, tomou a opção correcta. Ele esquece, porém, a existência de um passivo, e que a essa decisão há que juntar muitas outras que, ao longo do tempo, foram transformando, quase invariavelmente para pior, a imagem da nossa cidade.
Naturalmente que há mecanismos para evitar este tipo de vício de raciocínio. De um modo geral, a decisão política deveria ser precedida de uma análise por um grupo de peritos multidisciplinar e de acordo com princípios claros previamente definidos. Deveria, também, ser precedida da participação do público e das associações representativas da sociedade. Curiosamente, embora existindo no Porto esta massa crítica genuinamente interessada na cidade, ela é comummente ignorada, tal como aconteceu durante a fase de discussão pública do Plano Director Municipal (PDM), e arredada para um canto por ser “fundamentalista” (claro que esta acusação recorrente de “fundamentalismo” carece de toda e qualquer justificação, mas visto que se destina apenas a evitar um debate sério das ideias em causa, não vale sequer a pena perder tempo a tentar provar a sua desfaçatez). Curiosamente, ainda, foi aprovado pela Câmara Municipal um regulamento que teria como fim principal salvaguardar a mancha verde que ainda vai resistindo. É a mesma Câmara, contudo, que ignora diariamente a sua existência, a tal ponto que o regulamento nem sequer é referido na proposta de novo PDM.
Interessante é, também, analisar a evolução do discurso político. Antes das eleições predominam as propostas de mudança ou continuidade, respectivamente quando o partido em causa está na oposição ou no poder. A vontade de mudar é normalmente muito expressiva: os candidatos acreditam mesmo que, uma vez no poder, serão capazes de seguir uma política coerente, baseada nos princípios e estratégias que defenderam em campanha. A vitória nas eleições acarreta alterações profundas no pensamento e, nalguns casos, introduz um dado novo e doloroso que é a realidade. Progressivamente, instala-se na mente de alguns políticos uma espécie de corrupção intelectual que vai delapidando todo aquele frenesim de mudança. Os princípios possuem a grande virtude de serem fáceis de proferir mas o defeito ainda maior de a sua aplicação ser complexa. A certa altura do mandato, quando as ideias megalómanas surgem, é sinal de que pouco ou nada restará daquele entusiasmo inicial e de que a política deu lugar a uma sucessão de ideias desencadeadas.
Acredito que as coisas não têm de ser assim. Gostaria de encontrar um candidato que se pautasse pela verdade e que acreditasse que esse seria o caminho correcto para ganhar as eleições. Alguém que centrasse o seu discurso em explicar o modelo de cidade que idealiza, as estratégias que vai seguir e os projectos que irá concretizar, sabendo de antemão que são necessárias opções, já que os recursos são sempre escassos face às necessidades. Em suma, alguém que percebesse que a politiquice que caracteriza actualmente o país está completamente esgotada e que nada mais irá oferecer do que a frustração pessoal e a dos outros. É absolutamente necessário reintroduzir a ética, os valores e a verdade na política.
Entretanto, o centenário plátano de Damião de Góis foi a mais recente vítima de todo este cenário desolador em que nos achamos. Houvesse uma cultura da criação, da preservação e da reabilitação, e aquele monumento vivo continuaria incólume. Assim, os futuros moradores do edifício em construção teriam a enorme vantagem de abrir a janela e poder sentir uma lufada de ar fresco – que, ao fim e ao cabo, é um pouco aquilo que todos nós estamos a precisar.
Nuno Quental
Eng. do Ambiente
(publicado no Público, secção Local Porto, de 5 de Setembro)


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