8.12.05
REQUALIFICAÇÕES POLÉMICAS
Decididamente, as chamadas «requalificações urbanas» não deixam de suscitar debate, polémica...e protestos. Nada que não seja natural em ambiente democrático. Mas com o inconveniente de a discussão, regra geral, se acabar por fazer quando as obras estão em fase de conclusão ou são já facto consumado no plano das decisões. De requalificação espera-se outra e maior qualidade, e bem precisado está o nosso território—não apenas urbano—de intervenções que colmatem lacunas, que remedeiem erros acumulados, que acrescentem beleza e equilíbrio.
Sendo muito claro que nunca se pode agradar a todos—e que qualquer intervenção urbanística introduz elementos de novidade que podem ser controversos—a verdade é que as operações de requalificação urbana , nos últimos anos, têm deixado um rasto de descontentamento, uma sensação difusa de que se perderam oportunidades e se consumiram recursos, sem que algo de perdurável e de maior valia se impusesse ao «que estava». Fica por vezes a ideia de que tudo piorou, ou pelo menos as melhorias não corresponderam nem às expectativas nem aos custos associados.
A experiência da Porto 2001 ficou ligada a esse tipo de frustração colectiva, porque—a par de muitas coisas positivas—se interveio no tecido urbano consolidado, e até em espaços nobres, impondo um gosto, uma estética a que se poderia chamar minimalista e mineral—ciosa de transformar, apagando referências diversas, ignorando a história dos lugares e jogando tudo em conceitos demasiados abstractos, menosprezando a comodidade das pessoas, a importância dos aspectos ambientais, recobrindo tudo com granito...e alguma arrogância intelectual. Assim aconteceu na Cordoaria, que os portuenses já não reconhecem e que muitos consideram descaracterizado.
È que, se não está em causa a qualidade profissional dos autores dessa e de outras intervenções, avulta uma grande questão: as intervenções urbanas significativas devem ou não ser discutidas, apreciadas previamente por todos, especialistas ou não, sobretudo quando se referem a espaços com grande importância em termos de História, de memória, de afecto e de vida das pessoas?
Por outro lado, tem-se verificado que alguns arquitectos se preocupam pouco com o quotidiano de quem vai frequentar e usar o espaço público—e isso, em vez de requalificar, acentua a crescente desumanização das cidades: ele é o banco de jardim que, apesar da forma audaciosa, se mostra impróprio para que alguém lá se sente; a árvore que se perde no meio do cimento; o canteiro de flores banido em prol do granito pintado; os caminhos de jardim que já não conduzem a sítio nenhum. Pormenores!
Deve ser por isso que não falta quem conteste a obra ( ainda não concluída) da nova marginal de Leça da Palmeira, da autoria do arquitecto Siza Vieira. Num país onde tantas vezes se desconsidera a presença das árvores, a ausência destas é um dos motivos das queixas de alguns cidadãos, segundo se pôde ler aqui no JN. Sinal de mudança? Talvez, mas certamente, também, a antevisão do grande picadeiro à beira-mar, sem sombra, sob o sol de Agosto! Esse incómodo não parece comover o prestigiado autor, que adianta que « do ponto de vista paisagístico, aquele espaço não precisa de árvores».
O mesmo para outras coisas banais, até talvez desprezíveis, mas que correspondem a necessidades humanas, ambientais, que, para além das prerrogativas estilísticas, não deviam estar ausentes do desenho urbano.
Parece estar a revelar-se um crescente fosso entre os « fazedores» de cidade e os anseios de muita gente. Isso cria um « défice democrático» que será preciso ultrapassar.
Publicado em JN 22.11.2005
Sendo muito claro que nunca se pode agradar a todos—e que qualquer intervenção urbanística introduz elementos de novidade que podem ser controversos—a verdade é que as operações de requalificação urbana , nos últimos anos, têm deixado um rasto de descontentamento, uma sensação difusa de que se perderam oportunidades e se consumiram recursos, sem que algo de perdurável e de maior valia se impusesse ao «que estava». Fica por vezes a ideia de que tudo piorou, ou pelo menos as melhorias não corresponderam nem às expectativas nem aos custos associados.
A experiência da Porto 2001 ficou ligada a esse tipo de frustração colectiva, porque—a par de muitas coisas positivas—se interveio no tecido urbano consolidado, e até em espaços nobres, impondo um gosto, uma estética a que se poderia chamar minimalista e mineral—ciosa de transformar, apagando referências diversas, ignorando a história dos lugares e jogando tudo em conceitos demasiados abstractos, menosprezando a comodidade das pessoas, a importância dos aspectos ambientais, recobrindo tudo com granito...e alguma arrogância intelectual. Assim aconteceu na Cordoaria, que os portuenses já não reconhecem e que muitos consideram descaracterizado.
È que, se não está em causa a qualidade profissional dos autores dessa e de outras intervenções, avulta uma grande questão: as intervenções urbanas significativas devem ou não ser discutidas, apreciadas previamente por todos, especialistas ou não, sobretudo quando se referem a espaços com grande importância em termos de História, de memória, de afecto e de vida das pessoas?
Por outro lado, tem-se verificado que alguns arquitectos se preocupam pouco com o quotidiano de quem vai frequentar e usar o espaço público—e isso, em vez de requalificar, acentua a crescente desumanização das cidades: ele é o banco de jardim que, apesar da forma audaciosa, se mostra impróprio para que alguém lá se sente; a árvore que se perde no meio do cimento; o canteiro de flores banido em prol do granito pintado; os caminhos de jardim que já não conduzem a sítio nenhum. Pormenores!
Deve ser por isso que não falta quem conteste a obra ( ainda não concluída) da nova marginal de Leça da Palmeira, da autoria do arquitecto Siza Vieira. Num país onde tantas vezes se desconsidera a presença das árvores, a ausência destas é um dos motivos das queixas de alguns cidadãos, segundo se pôde ler aqui no JN. Sinal de mudança? Talvez, mas certamente, também, a antevisão do grande picadeiro à beira-mar, sem sombra, sob o sol de Agosto! Esse incómodo não parece comover o prestigiado autor, que adianta que « do ponto de vista paisagístico, aquele espaço não precisa de árvores».
O mesmo para outras coisas banais, até talvez desprezíveis, mas que correspondem a necessidades humanas, ambientais, que, para além das prerrogativas estilísticas, não deviam estar ausentes do desenho urbano.
Parece estar a revelar-se um crescente fosso entre os « fazedores» de cidade e os anseios de muita gente. Isso cria um « défice democrático» que será preciso ultrapassar.
Publicado em JN 22.11.2005


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